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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Sobre "Nelson, o alquimista do inferno"

 


Sobre Nelson, o alquimista do inferno, de Renata Soares JUNQUEIRA, (São Paulo: Todas as musas, 2022, 125 p.).

 

Não poucos leitores ou espectadores (de teatro, de cinema e de exibições televisivas) manifestam desconforto diante da poética de Nelson Rodrigues. Entretanto, o que para alguns parece inabilidade dele para trazer à luz narrativas e cenas atraentes, agradáveis, reconfortantes é, na verdade, um talento extremo para obter exatamente o efeito vizinho da náusea que sua literatura e sua dramaturgia carregam. Por isso, Renata Soares Junqueira não poderia ter escolhido melhor título para seu último livro. Com efeito, Nelson Rodrigues faz de seus textos uma ponte – ou melhor: escuro túnel – para levar o leitor ou expectador da poltrona confortável da sala diretamente para o reino de Satã, onde ele pode “apreciar” aspectos da vida – mormente a familiar – que em geral se prefere deixar atrás dos biombos da alienação ou da mistificação. E é como alquimista que Nelson mistura o que encontra pela frente para tentar a metamorfose desejada, não de ossos em ouro, como o Flamel de Lima Barreto, mas, pelo contrário, a transformação de pretenso diamante (a fidelidade conjugal, por exemplo) em cinzas (o puro creme da promiscuidade ou putaria).

Em que consiste a alquimia de Nelson? Renata argumenta, com sólidos fundamentos, que “a dramaturgia de Nelson Rodrigues não será mesmo nem uma coisa nem outra [tragédia, comédia, tragicomédia, drama, melodrama], mas uma habilíssima montagem de elementos vários, redundando (...) num gênero de feição bem popular: a farsa (grifo da autora) ...”. Alquimia de gêneros, de estilos, de abordagens, de modos de ver o mundo, as pessoas e as coisas, buscando seu lado sombrio, para evitar o engano ou, pelo menos, saber lidar com ele. Bravo!

Por que é infernal esta alquimia? Porque vai na direção de “mostrar as tripas” daquilo que é um cadáver aberto, de fato, enquanto é apresentado, ilusoriamente, como belo e bom corpo vivo e atuante: a família burguesa, desde sua angelical definição por Diderot.

Nesse afã maldito, a quem Nelson Rodrigues “se junta”, alinhando-se ou até sofrendo influência direta, na dramaturgia brasileira? É bem interessante a resposta de Renata Junqueira para esta questão, buscando comparações com as obras de Qorpo Santo, Oswald de Andrade e Lúcio Cardoso, na primeira parte do livro (I-Teatro), que é praticamente uma aula rápida e clara, mas profundamente esclarecedora (Renata é uma habilíssima professora, além de profícua pesquisadora). Sua leitura enriquece o cabedal dos iniciados, mas também se constitui numa introdução acessível e ao mesmo tempo estruturante para o leigo.

Trazido para o cinema, o teatro de Nelson Rodrigues sofre mutações: os alquimistas das cenas em celuloide lançam diferentes olhares sobre o inferno que chega às suas mãos em forma de texto teatral, reservando-se o direito de lidar com as personagens de modo a redimi-las ou mantê-las em condenação; de modo a manter o espectador sob as garras de Satã ou a reservar-lhe alguma possibilidade de fuga ou alívio. Renata analisa três experimentos cinematográficos dignos de atenção (Parte II-Cinema): o de Leon Hirszman (A falecida), o de Nelson Pereira dos Santos (Boca de Ouro) e o de Arnaldo Jabor (Toda nudez será castigada). A professora-pesquisadora, habituada aos procedimentos que evitam o olhar monocromático e a mirada que foge à natureza multifacetada da realidade, oferece, com esta parte de sua obra, outra rica aula sobre arte cênica e sétima arte; não só permite ao leitor vislumbrar as diferenças entre as duas (cada qual com suas possibilidades e limitações técnicas), mas também notar as maneiras distintas de abordar artisticamente um mesmo tema e problemática. Fica claro aquilo que todos deveriam suspeitar: nas mãos do escritor, do dramaturgo e do cineasta, cenas, personagens, mensagens explícitas e implícitas se modificam, profunda ou superficialmente; descobre-se como isso se deu no caso em análise: há um Nelson Rodrigues (nos palcos) e outros Nelson Rodrigues (nas telas). Quais as características de um e de outros? É ler e saborear.

 

Valdemir Pires

Leitor e eterno aprendiz que rabisca em "Escritos" (valdemirpires.com) sem qualquer pretensão. Disponível para minicursos e palestras sobre leitura e reflexões sobre o tempo. Aceita receber livros de literatura e de ensaios para resenhas, publicando-as no seu site somente no caso de avaliação favorável.



Para saber mais sobre o livro, clique na imagem e acesse:







quinta-feira, 8 de agosto de 2019

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Já disponível: Linguagem do Cinema, Linguagens no Cinema

Conheça a nova edição de nossa revista acadêmica, com a segunda parte do dossiê: "Linguagem do Cinema, Linguagens no Cinema", organizado por Renata Soares Junqueira, Edimara Lisboa, Fernanda Barini Camargo, Mariana Veiga Copertino Ferreira da Silva, Fernanda Verdasca Botton e Flavio Botton.

Revista Todas as Musas

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sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Linguagem do Cinema, Linguagens no Cinema, na segunda-feira (5-8)!

Na segunda-feira (5-8-2019), estará disponível o volume 2 do Dossiê: Linguagem do Cinema, Linguagens no Cinema, organizado por Renata Soares Junqueira, Edimara Lisboa, Fernanda Barini Camargo, Mariana Veiga Copertino Ferreira da Silva, Fernanda Verdasca Botton e Flavio Botton.

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quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Todas as Musas: Chamada Para Publicação!

Todas as Musas: Chamada Para Publicação!

Chamada para o número 20

O vigésimo número de Todas as Musas será publicado em fevereiro de 2019.

Esse volume será coorganizado por Renata Soares Junqueira, Edimara Lisboa, Fernanda Barini Camargo, Mariana Veiga Copertino Ferreira da Silva, Fernanda Verdasca Botton e Flavio Botton.

Os artigos podem ser submetidos até 30 de novembro de 2018 (em português, inglês ou espanhol).

Haverá um dossiê que trará como tema "Linguagem do Cinema, Linguagens no Cinema". O cinema, desde a sua aparição no final do século XIX, tem-se desenvolvido sob o estímulo de um desejo de autonomia e de libertação da tutela da literatura e do teatro, fontes preciosas das quais os cineastas têm tirado inspiração para as narrativas fílmicas. Hoje que a autonomia do cinema como linguagem artística está plenamente consolidada, os cineastas continuam revisitando a literatura, o teatro e outras artes como a música, a pintura, a dança etc., mas agora é já para demonstrar como a sétima arte se serve das demais livremente e com pleno domínio do seu próprio dispositivo técnico, propondo um diálogo interartes suscitado por relações desierarquizadas. Neste dossiê, pretendemos reunir artigos de estudiosos do cinema e da literatura contemplados de uma perspectiva interdisciplinar que os relaciona entre si e com as demais linguagens artísticas que o discurso cinematográfico articula nas suas variadas expressões criativas.

Serão aceitos ainda os artigos para a seção de tema aberto, além das resenhas.

Pede-se que as normas sejam consultadas, sem o que a submissão pode ser rejeitada sumariamente.


todasasmusas@gmail.com

Dúvidas? Comentários? Escreva para nós.








segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Chamada para Publicação!




Esse volume será coorganizado por Renata Soares Junqueira, Edimara Lisboa, Fernanda Barini Camargo, Mariana Veiga Copertino Ferreira da Silva, Fernanda Verdasca Botton e Flavio Botton.

Veja a chamada e as normas no site da Editora em:

  
Para mais informações, escreva para:



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